Ohmid Shams

jornalista, artista, escritor e crítico literário iraniano, hospedado na cidade-refúgio de Aarhus (Dinamarca), de 2014 a 2016
28/11/2016

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omidFoto: Saeid Habil

1) Por que você teve que deixar seu país ?
Deixei meu país por diferentes razões. Após ter sido várias vezes preso, torturado e submetido a interrogatórios, as ameaças e as perseguições foram expandidas para atingir minha família. Foi-me claramente dito ou para deixar o país ou para enfrentar as consequências de minhas atividades, que iam afetar diretamente minha família.
A outra razão foi que eu não era mais capaz nem de trabalhar como jornalista, nem de publicar meus trabalhos. Escrevi mais de seis livros e trinta artigos, desde 2009, e todos eles foram publicados clandestinamente e de graça. Não poderia me sustentar financeiramente, se continuasse a publicar minhas obras sem censura e, portanto, gratuitamente. Isso me obrigaria a parar de escrever e a procurar um outro emprego.

2) O que você fez durante os dois anos da residência da ICORN em Aahrus ?
Publiquei diversos artigos em jornais e revistas dinamarquesas, sobre os assuntos atuais no Irã e na Dinamarca, relativos a Direitos Humanos e questões culturais. Fiz uma escultura, “A Árvore de mechas de cabelo”, que representa a história da luta das mulheres iranianas com relação a seu direito sobre seus corpos. A árvore mostra 70 mechas de cabelo real, coletadas de mulheres iranianas que se recusam a colocar o hijab, no Irã. Também editei uma antologia de poesia iraniana de vanguarda, traduzida para o dinamarquês, que será publicada nos próximos meses.

Fotos: Parissa Jamali (above) e Thomas Glud (below)

3) Qual é a importância da ICORN para você ?
Em 2015, quase 100 escritores e jornalistas foram mortos, simplesmente por praticar seus direitos fundamentais à liberdade de expressão. Os governos de todo o mundo estão usando métodos mais inovadores, sutis e indiretos, para censurar e silenciar os escritores e jornalistas. O papel da ICORN nesses dias obscuros é nada mais que vital, porque a ICORN pode simplesmente salvar vidas. Lembro-me de Elisabeth Dyvik, a diretora de programa da ICORN, anunciando com a voz trêmula a morte de um escritor etíope, que foi executado no seu país, enquanto estava na lista de espera da ICORN. Esse fato, de quebrar o coração, diz tudo sobre a importância da ICORN.

4) O que você vai fazer depois da residência na ICORN ?
Alguns amigos do município Aarhus sugeriram que eu pedisse asilo político na Dinamarca e fiz isso. Mas, no meio do processo, o novo governo de direita assumiu o poder. Em seguida, o Parlamento dinamarquês aprovou uma lei conhecida como L87, em janeiro 2016. Existe apenas uma lei similar a esta, na história, e isso aconteceu durante a Alemanha nazista. A L87 apresenta uma variedade de medidas restritivas, de modo a tornar a Dinamarca menos atraente para os requerentes de asilo. A nova lei permite que a polícia confisque joias, dinheiro e pertences dos refugiados, para financiar sua permanência no país, durante o processo de avaliação. Em seguida, o governo dinamarquês tentou limitar meu direito de liberdade de movimento, pedindo-me para ficar na Dinamarca durante o processo de avaliação, e eu já tinha a residência legal na Dinamarca e o direito de viajar, saindo e entrando quando quisesse. Finalmente deixei a Dinamarca para ir para o Reino Unido, em 2016, onde comecei meu doutorado em Direitos Humanos. Também cancelei meu pedido de asilo na Dinamarca, simplesmente porque não conseguia me convencer de que teria sido preciso fugir do regime fascista do Irã para procurar asilo no regime nazista da Dinamarca.

Biografia
Omihd Shams Gakieh é escritor, artista, crítico literário e jornalista freelance iraniano. Tem mestrado em Estudos Americanos pela Universidade de Torino, na Itália, e publicou vários livros, que incluem poemas, romances e traduções de autores americanos proeminentes para o farsi, como Ginsberg e Bergstein. Escreveu numerosos ensaios, sobre poesia e teoria crítica, todos publicados em várias revistas literárias e em revistas online. Foi co-editor de revistas literárias, incluindo Zendeh Rood, Bidaar e Dastoor. Depois de ter recebido ameaças e sofrido agressões, por parte das autoridades no Irã, como resultado de seus escritos e engajamento na situação dos Direitos Humanos no país, fugiu para a Europa. Shams Gakieh chegou com segurança em Aarhus, em abril de 2014, e continua seus escritos e trabalhos em seu novo refúgio seguro.

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