Noufel Bouzeboudja

CABRA:

escritor, artista, jornalista Amazigh (Argélia) hospedado pela cidade refúgio de Fanoe (Dinamarca – 2011/2013)

7/06/2016

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CABRA: Por que você teve que deixar Argélia, seu país de origem?
Deixei o meu país porque era cada vez mais difícil para mim continuar meu trabalho como um artista livre pensador. Em geral, escrevo sobre tabus que são vistos como uma ameaça à ideologia oficial de um governo que acaba com as esperanças da população, em relação a um futuro melhor. Fui ferido em 2001, durante as insurreições na Primavera Negra Berber, quando as pessoas em Kabylia resistiram ao ostracismo e à exclusão de sua cultura e de sua língua. Continuei por muitos anos lutando para o reconhecimento da nossa cultura (a cultura amazigh, que resiste como cultura nativa da África do Norte, apesar dos colonizadores), no início como estudante e depois como professor de universidade, até que um dia, enquanto estava fazendo uma leitura pública dos meus textos, alguns extremistas barbudos se levantaram, me insultando e me ameaçando. Em 2009, fomos expulsos de um evento internacional, pelas forças militares, sob o pretexto de que estávamos sob ameaça de um grupo terrorista. Tudo isso e outros motivos me levaram a buscar um outro lugar para aperfeiçoar a minha ‘arte’ e aprender com outras culturas e experiências. Fui primeiro para a Espanha, onde fiquei ilegalmente por um tempo. Em seguida, fui para a Dinamarca, numa pequena ilha chamada Fanoe.

CABRA: O que você fez na cidade-refúgio Fanoe, que o acolheu na na Dinamarca?  
Tenho sido muito ativo. Colaborei com artistas dos países nórdicos, além de outros, do mundo inteiro, graças à internet e ao networking. Dei palestras e conferências em várias universidades e escolas secundárias, mas também performava meus textos em leituras públicas, nos teatros. Publiquei também muitos livros.

CABRA: Qual é a importância da rede ICORN para você? 
No meu tempo de escritor convidado pela ICORN, trabalhei como representante dos artistas, por volta de 2 anos. Assim, tive a oportunidade de ver as diferentes facetas da organização e ganhei uma boa experiência durante as reuniões com os artistas convidados e a administração, e também durante as oficinas que eu ministrava. Estar em estreito contacto com os artistas convidados de diferentes horizontes foi minha maior recompensa, porque ela me ajudou a entender melhor os outros, a mim mesmo, o mundo. O trabalho feito pela ICORN e sua excelente equipe é de grande importância, porque dá aos artistas, escritores, jornalistas e editores a oportunidade de continuar seu trabalho e buscar outras oportunidades. ICORN é uma porta que conduz a outras portas e janelas. Os artistas convidados servem como pontes entre as sociedades de acolhimento e seus países de origem. Não há melhor embaixador do que os artistas, porque eles estão mais perto das pessoas (artistas, estudantes, alunos, etc.), interagindo com eles, dando-lhes a oportunidade de dar e receber, culturalmente, intelectualmente, psicologicamente. A maioria dos artistas convidados pela ICORN, embora enfrentando muitas dificuldades, está realizando um grande trabalho em seus países de acolhimento.

CABRA: O que você fez depois da sua residência com ICORN? 
Depois de terminar minha residência, voltei para o meu país onde inaugurei um festival anual de poesia e contos. Agora estou vivendo entre a Europa e a África do Norte, promovendo meu trabalho, performando meus textos. Em Paris, tive a oportunidade de fazer um monólogo em minha língua materna, o kabyle, e de publicar um romance em inglês, intitulado Uma pedra no rio, bem como uma antologia de contos em minha língua materna : D tayri kan (É apenas amor). No momento, trabalho também com associações parisienses, ministrando oficinas de escrita criativa, em espaços que eles erroneamente chamam de “periferias problemáticas“. Digo erroneamente, porque a energia e a criatividade dessas periferias são enormes. Meu último trabalho com alguns artistas internacionais tomou a forma de um poema cinematográfico, intitulado Allegoria, que ganhou mais de 6 prêmios internacionais. Assista aqui :

 Poema cinematográfico Allegoria – filmado em La Rioja, Espanha.

 

Biografia: Escritor, artista, jornalista. Noufel Bouzeboudja é um escritor, artista e jornalista amazigh, nascido na Argélia. Trabalhou como professor de inglês e dirigiu várias obras de Shakespeare. Escreve em árabe, inglês, kabyle e francês e seus romances têm sido aclamados pela crítica. O último livro de Noufel Bouzeboudja é intitulado Do alto de nossas potências (‘From Above Our Gallows’) e explora temas encontrados nas recentes revoluções da África do Norte e no Oriente Médio. Residiu como escritor convidado pela ICORN na cidade-refúgio de Fanø, na Dinamarca (2011-2013).

 

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