Mary Ann DeVlieg

é consultora especializada em cooperação cultural internacional, política cultural, mobilidade das artes, artes e direitos humanos.
13/05/2016

Livre expressão artística é um direito

marie ann

Download the ITV Original ITVMaryAnnDeVLIEGOriginal

CABRA: Por que você se comprometeu com a ICORN?

Faz cinco anos que tenho contacto com a ICORN como colaboradora, camarada, colega e amiga. Trabalhei para freeDimensional, uma organização que auxilia artistas cujas obras de arte falam a verdade ao poder, e que são, portanto, alvo de forças repressivas políticas, religiosas ou sociais. FreeDimensional funcionou durante 10 anos e mudou agora, assumindo outras funções, mas ainda ajudo os artistas a encontrarem lugares seguros, incluindo residências para artistas, ou cursos. Tenho enorme respeito e admiração pela ICORN, uma bela rede internacional, que está concretamente realizando uma bela ideia: proteger e apoiar artistas cuja arte os coloca na mesma categoria que os defensores dos Direitos Humanos. Dirijo-me ao escritório da ICORN na Noruega, quando preciso de informações sobre vistos, sobre a verificação dos casos, ou se tenho que decidir sobre o caso de um artista que se enquadra em seus critérios. Temos trabalhado juntos muitas vezes, mesmo quando o artista não pode ter lugar em uma residência da ICORN.

CABRA: Que tipo de apoio você oferece para a ICORN?

A ICORN tem sido muito gentil, convidando-me regularmente para conduzir workshops e para ser moderadora em painéis de discussão, durante as suas reuniões anuais. Agora sinto-me parte da “família ICORN”! Embora eu não trabalhe para uma cidade, nem mesmo para uma cidade da rede ICORN, acho que a minha experiência em ajudar artistas que não têm o apoio da ICORN pode ser interessante para os coordenadores das cidades-refúgio da rede. Além disso, tenho trabalhado há 20 anos para melhorar a mobilidade dos artistas (vistos, obstáculos legais, fundos financeiros…) para suas viagens profissionais. Os artistas da ICORN também precisam viajar e, por isso, o que temos feito para ajudar a mobilidade de artistas é importante e pode também ajudar aos artistas da ICORN .

CABRA: Na sua opinião, qual é a importância da ICORN, hoje em dia?

 A importância de ICORN está aumentando, infelizmente! Há mais e mais artistas cuja expressão livre os torna alvos de repressão. Ou, para ser mais precisa , há mais e mais elementos repressivos e intolerantes em nossas sociedades, que sentem que podem, com total impunidade, atacar, punir, violar, amaldiçoar ou aprisionar artistas que simplesmente expressam suas visões artísticas, sonhos e esperanças. É assustador e deprimente ver essa intolerância crescente. Leis internacionais garantem a todos o direito de ter, expressar, ou procurar ideias e opiniões. Mas quem está no poder é detentor do status quo e não pode tolerar o pensamento livre. As cidades da rede ICORN mostram ao mundo que a livre expressão artística é um direito humano, e que o mundo precisa proteger e se orgulhar desse direito. 

CABRA: O que você acha da expansão da ICORN no Brasil, através da CABRA?

Levar a ICORN para o Brasil é um passo fundamental e extremamente positivo! Em primeiro lugar, porque a cultura brasileira é tão rica e forte: o Brasil é um lugar onde os artistas podem sentir as sensibilidades artísticas e a rica mistura de histórias e culturas. Um berço, ou melhor, um terreno fértil. É também muito importante que os artistas que têm que fugir do terror e da repressão possam chegar a um lugar de boas-vindas, e eu não acho que isso se deve apenas a uma ideia estereotipada de que os brasileiros acolhem bem as pessoas! Finalmente, vemos que é muito importante para os artistas, que têm que se mudar de seus países, a possibilidade de poderem ficar o mais próximo possível de seu domicílio. Então, de repente, nós podemos ver a ICORN no Brasil também (embora não só) como um lugar de acolhimento para os artistas da América Latina e da África, que necessitam de abrigo temporário, na esperança de poderem voltar para seus países, assim que possível.

 

Biografia

Mary Ann DeVlieg é consultora especializada em cooperação cultural internacional, política cultural, mobilidade das artes, artes e direitos humanos. De 1994 a 2013, foi diretora da maior rede internacional de profissionais para as Artes Cênicas contemporâneas, IETM, e foi diretora do Desenvolvimento Estratégico para a freeDimensional, de 2014 a 2015. Colabora com a ICORN, FreeMuse e outras ONGs, defendendo a liberdade de expressão e os direitos humanos. É co-organizadora da conferência “Artistas contra todas as probabilidades”, no Oriente Médio e Norte da África. Co-fundou o “Fundo Cimetta Roberto de Mobilidade nas Artes”, no Mediterrâneo, e fundou www.on-the-move.org, um recurso on-line para mobilidade profissional dos artistas. Presidiu o primeiro “Fundo Artes Japão”, da Fundação Japão Europa (2006-2010), bem como grupos de trabalho da UE sobre “Artes-Direitos-Justiça” e “Criação e Criatividade”. Representou a cultura no “Grupo de Reflexão de Alto Nível da UE”, sobre estudante e mobilidade jovem, e esteve no grupo diretor da iniciativa da Comissão Europeia, «A cultura e a criatividade como vetores de desenvolvimento nos países africanos, caraíbas e do Pacífico”. É avaliadora frequente da área da cultura, na Comissão Europeia, e da área de bolsas de investigação científica, bem como colaboradora para avaliação de projetos plurianuais de cooperação internacional. Coordenou numerosas publicações sobre cooperação internacional e intercâmbio e foi uma das colaboradoras da edição chinesa do “Compass Cultural Europa-China”.

Assista à palestra de Mary Ann DeVlieg sobre cultura e mobilidade no evento “Safe Havens 2015-2017”, realizado em Malmo:

Captura de Tela 2016-05-29 às 11.09.57

 

Anúncios