Mana NEYESTANI

Cartunista Iraniano que foi hospedado pela “cidade refúgio” de Paris entre 2011 e 2013
27/04/2016

foto Mana - 1
Mana Neyestani entre Sylvie Debs e Lia Krucken na Assembléia Geral da ICORN em Paris, 2016.

Download the ITV OriginalITVManaNeyestaniOriginal

CABRA: Porque você teve que deixar o seu pais?
Em 2006, uma ilustração que fiz para crianças, numa revista de entretenimento do Irã, gerou algumas más interpretações, em meio ao povo azeri (a grande minoria étnica do Irã). Tratava-se de um texto humorístico escrito por mim, intitulado : “Como derrotar baratas?” Propus 9 métodos engraçados para eliminá-las e o primeiro método era “conversar com uma barata”. Desenhei uma pequena barata, tentando desesperadamente entender o que um menino dizia, em uma pseudo linguagem de barata. A barata não entendia nada e perguntava: “Namana?”. Namana é uma palavra azeri que significa: “o quê” ou “o que você esta dizendo?”, mas também é muito comum numa informal conversa persa. Infelizmente, algumas pessoas azeri tomaram isso como uma piada anti azeri, achando que eu queria representá-las como insetos. Usaram isso como pretexto para chegar às ruas e protestar contra o governo e contra todas as discriminações em relação à sua etnia. O regime, então, me mandou para a prisão como uma forma de acalmá-los, mas não deu certo, os manifestantes não pararam. Então, o regime os atacou e matou alguns deles. Depois de três meses de prisão e recebendo algumas ameaças por telefone, decidi deixar o país, durante uma saída da cadeia, em liberdade condicional.

CABRA: O que você fez em Paris, a cidade refúgio ICORN que lhe acolheu ?
Fiz o meu trabalho de rotina como cartunista e escritor gráfico. Publiquei “Uma metamorfose iraniana”, meu romance autobiográfico em quadrinhos e em francês, o que foi um passo importante para mim, durante a residência no ICORN.

CABRA: O que representa a importância de ICORN para você ?
Fiquei 4 anos na Malásia, tentando chegar a um porto seguro e obter o visto de entrada em alguns países ocidentais, sem conseguir. A embaixada da França me recusou duas vezes o visto. Estava desesperado, quando o ICORN aceitou minha candidatura e me apoiou. Graças ao ICORN, finalmente foi possível salvar-me de uma situação frágil, na Malásia.

CABRA: O que você esta fazendo agora, depois dos seus 2 anos de residência com ICORN ?
Sigo trabalhando como cartunista freelance. Além disso, após a publicação de três livros e trabalhando no quarto, encontrei meu lugar como romancista gráfico na França.

 

Biografia

Mana Neyestani é cartunista iraniano premiado, com mais de 20 anos de experiência. Já trabalhou com vários jornais persas e, de 2003 a 2006, esteve na direção do suplemento infantil da revista semanal Iranjome, agora proibida. Neyestani publicou várias coletâneas, incluindo “Da vida de Mr. Ka” e um romance autobiográfico em quadrinhos, ” Uma metamorfose iraniana”. Foi perseguido em 2006, em razão de uma historia em quandrinhos que destacou a situação minoritária da comunidade Azeri, no noroeste do Irã: o desenho incitou motins entre os Azeris. Por essa razão, foi preso por três meses e fugiu do Irã, enquanto aguardava julgamento, em liberdade condicional. Chegou a Paris em 2011 como o primeiro escritor convidado pela cidade-refúgio de Paris.

 

Publicado no Brasil

mana libro
Uma metamorfose iraniana, Ed. Nemo. http://grupoautentica.com.br/nemo/quadrinhos/uma-metamorfose-iraniana/1227

O pesadelo de Mana Neyestani começa em 2006, no dia em que ele desenha uma conversa entre uma criança e uma barata no suplemento infantil de um jornal iraniano. A barata desenhada por Mana utiliza uma palavra azeri, e os azeris, povo de origem turca do norte do Irã há muito oprimido pelo regime central, se sentem provocados. Para alguns deles, o desenho de Mana é o estopim que faz inflamar os ânimos e um excelente pretexto para desencadear um levante. O regime de Teerã precisa de um bode expiatório – Mana. Ele e o editor da revista são detidos e mandados para a prisão 209, uma seção não oficial da prisão de Evin, sob a administração da VEVAK, o ministério das Informações e da Segurança nacional. Ao termo de três meses de detenção, Mana obtém alguns dias de liberdade provisória. É então que decide fugir com sua mulher. Comovente e perturbadora, Uma metamorfose iraniana é um mergulho em apneia no sistema totalitário kafkiano instaurado pelo regime iraniano.

Anúncios