Fredrik Elg

Secretário de Cultura da Cidade de Malmö, responsável pelo programa ICORN na Suécia
22/08/2016

Elg.jpgFredrik Elg na Assembléia Geral da ICORN em Paris, 2016. Foto por Sylvie Debs

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Fredrik Elg e Sylvie Debs na Assembléia Geral da ICORN em Paris, 2016. Foto por Lia Krucken.

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CABRA:  Porque você se comprometeu com a ICORN ?
Em nível organizacional, posso dizer que Malmö é uma cidade muito internacional, onde quase metade da população tem ligações estreitas com outros países, por meio da migração recente para a Suécia e tendo-se, depois, estabelecido na cidade. Quando Malmö tornou-se uma cidade-refugio da ICORN, em 2010, a comunidade internacional saiu reforçada e ganhou novas visões e um olhar diferente para a vida cultural da cidade.

Em um nível pessoal, introduzi o sistema ICORN na cidade de Malmö e, desde então, sempre fiquei muito envolvido nessas questões em nível local, nacional ou internacional, trabalhando para o Conselho Sueco de Artes, onde compilei o primeiro manual para as cidades suecas da ICORN e viajei o pais inteiro (às vezes para outros países) para promover o sistema em outras cidades. Acho que uma das razões para o grande sucesso da ICORN, enquanto organização e sistema nos últimos anos, é que ele está trazendo uma notável contribuição à paisagem desse tipo de organização que trabalha nesse campo. Muito poucas organizações são capazes de oferecer programas de residências de longa duração.

CABRA:  Que tipo de atividades você esta organizando para/com a ICORN ?
Às vezes, a única saída para alguns artistas e ativistas (ou “artivistas”) é passar algum tempo no exilio. Ao contrario do que o sistema de asilo usual (que não é uma opção para todos), o sistema da ICORN proporciona ao artista/escritor um acesso imediato a uma rede de outros “artivistas”, editores, produtores, etc., que de fato enriquece a liberdade de expressão global. Promover e participar é certamente tão importante quanto a proteção, na maioria dos casos. A coisa mais triste seria se artistas importantes ou outros intelectuais fossem silenciados em (ou através do) exílio, devido à falta de redes e conexões com o debate publico. Por isso trabalhamos sempre em três níveis:

  • A : Proteção física e psicológica, com a vida social proporcionada pelo contexto da habitação e uma bolsa de estudos na cidade, com o conforto de uma rede local de confiança.
  • B: Oportunidade de acesso a redes locais, regionais, nacionais e internacionais de pares e instituições que promovem a carreira no campo artístico do hóspede.
  • C : Possibilidade de ficar em contato com a comunidade originária de seguidores/fãs no país e na região que o convidado deixou para trás. Esta é, talvez, por vezes, a parte mais complicada que exige que estejamos constantemente atualizando nossas informações e competências, em matéria de conhecimento do país, bem como de novas mídias. Embora muitas vezes o hóspede possa facilitar o feedback ao país de origem, quando tem um bom acesso à Internet e às ferramentas para transmitir sua arte.

A cidade de Malmö é a única no sistema que tem dois programas de bolsas de estudos para a ICORN, ao mesmo tempo. No momento, temos um musico, Ramy Essam, e um escritor, Jude Dibia, como convidados num programa de residência de dois anos. Desde o inicio, temos priorizado as ligações de nossos hóspedes com outras organizações artísticas institucionais e professionais independentes. Acreditamos que é importante para nossos convidados ter a possibilidade de construir suas próprias redes fora do contexto institucional da cidade. Isso por duas razoes principais: a primeira é que a maioria dos escritores e artistas convidados muitas vezes têm péssimas experiências com organizações políticas ou municipais e, a fim de desenvolver confiança, é preciso providenciar a maior independência possível, porque não existe verdadeira liberdade de expressão se o hóspede não pode perceber sua independência em relação à cidade que o acolhe. A segunda razão é porque o programa da ICORN está oferecendo uma longa residência de dois anos para que o convidado possa aproveitar desse tempo para se preparar para depois e possa construir novas redes sólidas de sua própria escolha. No entanto, além disso, nós também organizamos eventos na cidade e, por exemplo, levamos nossos convidados para feiras de livros internacionais, a fim de promover a obra dos escritores, obviamente quando sabemos que não há perigo para eles e que isso vai ajudar a carreira do escritor ou do artista. Como uma extensão de nosso compromisso com a ICORN e com outras organizações que promovem os direitos do artistas e a liberdade de expressão, tais como Freemuse, Scholars at risk, etc., demos início a um encontro anual internacional, Safe Havens -the Malmö Meetings, para todo setor de organizações, artistas e ativistas do campo.

CABRA:  Qual a importância de ICORN para você ?
Acreditamos que é importante respeitar as escolhas dos convidados e que a cidade tem muito a ganhar com esse programa em que nem é preciso promover demais a cidade, nesse contexto, ou fazer com que o convidado “trabalhe para nós”. Se o convidado está feliz com a residência em Malmö, temos certeza de que as pessoas vão ouvir sobre isso. Integramos o programa da ICORN como parte do trabalho da Secretaria de Cultura da cidade. Por exemplo, para nossa primeira escritora convidada, Parvin Ardalan, do Irã, foi concedida residência permanente na Suécia e agora ela trabalha como funcionária na Secretaria da Cultura da cidade. Isso deveu-se a seu grande conhecimento dos modelos de trabalho feministas e questões de gênero e porque ela apresentou alguns projetos muito interessantes para a cidade.

Nossa “comunidade” de escritores convidados e artistas, bem como grande grupo intelectual e artístico que se desenvolve em torno desse programa está em constante crescimento, agregando muito valor para a Secretaria de Cultura, a cidade e, juntamente com o número crescente de cidades da ICORN no país, também para a vida cultural do país como um todo. A ICORN, como rede internacional de cidades, ativistas e artistas ainda em desenvolvimento, aumenta o poder do pensamento livre e global, a liberdade de expressão e a liberdade artística.

CABRA:  O que você acha sobre o Brasil ingressar na ICORN ?
É muito bom. Temos trabalhado duro para incentivar mais cidades suecas para se juntarem à ICORN e, mesmo tendo bastante sucesso, vemos agora que os países escandinavos são maioritários no sistema. Mas é de grande importância ter um equilíbrio entre oeste e leste, norte e sul no nosso sistema. A grande força no sistema da ICORN é que cada cidade fica responsável por seu escritor/músico/artista convidado. Uma vez que a ICORN é uma organização com membros que pertencem às suas cidades, isso nos dá mais força, em termos de conhecimento e experiência compartilhadas, bem como uma maior compreensão das condições em que nossos convidados estão vivendo. Estamos muito impressionados com o trabalho que tem sido feito nas cidades do Brasil para aderirem à rede e estamos desejando as boas-vindas para nossos novos amigos da comunidade global à qual pertencemos.

Para apoiar a expansão da ICORN em outras regiões do mundo, Malmö iniciou uma colaboração com a cidade Cap Town, na África do Sul, e com um número de organizações na África do Sul, a fim de, através de uma cooperação de cidade para cidade, ver a possibilidade de apoiar a integração da cidade de Cape Town como a primeira cidade da ICORN na África Subsaariana.

Biografia
Fredrik Elg é atualmente o chefe de desenvolvimento de Departamento de Cultura da Cidade de Malmö. Anteriormente, foi Gerente do Projeto para cidades-refúgio no Conselho de Artes da Suécia, onde escreveu o manual para as cidades-refúgio suecas. Iniciou o “Safe Havens”, programa da ICORN em Malmö, e foi um elemento fundamental na abertura do programa, internacionalmente, também para músicos e artistas visuais. O programa de cidade-refúgio da ICORN apoia as cidades e regiões que oferecem abrigo para escritores e artistas em risco. Em 2013, Fredrik Elg deu início ao “Safe Havens”, aos encontros de Malmö e a uma série de conferências anuais para ativistas, instituições, ONGs e artistas envolvidos com proteção e promoção dos artistas e escritores em risco. No início de sua carreira, trabalhou como produtor para Museus de Malmö e como produtor e diretor de fotografia em vários projetos de filmes. Elg estudou no Colégio de Cinema Europeu, na Dinamarca, na Universidade de Malmö e na Universidade de Lund, na Suécia, e também na Universidade de Cape Town, na África do Sul.

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