Felix KAPUTU

Escritor Congolês que está hospedado pela cidade refúgio de Kraków na Polônia

foto Kaputu - 1Sylvie Debs e Felix Kaputu na Assembléia Geral da Icon em Paris. Foto por Lia Krucken, 2016.

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CABRA:    Por que você teve que deixar seu país?
Deixei o meu país, porque minha vida estava em perigo. O governo me ameaçou de morte. Nesse mesmo tempo, todas as amizades locais foram bloqueadas, porque ninguém ousava se aproximar de mim, com medo de que o mesmo destino lhes fosse reservado, sob acusação de cumplicidade. Além disso, era impossível para mim continuar a exercer o meu trabalho nessas condições. O medo estava presente a cada momento, porque, mesmo depois da minha libertação, a segurança do país me seguia em todos os lugares que eu ia. Então, finalmente soube que o governo pediu aos serviços de segurança para acabarem comigo.

 CABRA: O que você está fazendo em Kraków, a cidade-refúgio do ICORN que o acolheu?
Na minha cidade-refúgio, estou tentando escrever um novo doutorado numa área que me fascina, a interdisciplinaridade, que reúne antropologia, arte, rituais e construção de identidade. No entanto, para manter a tradição do ICORN, estou também trabalhando em dois romances.

CABRA: Qual é a importância do ICORN para você ?
O mais importante para mim tem dois níveis: o primeiro, é o refúgio que é dado ao artista. O segundo, a possibilidade de continuar a fazer o seu trabalho. A caneta pode realmente continuar seu trabalho. Obviamente, várias discussões revelam que seria razoável que os artistas tivessem mais tempo para serem capazes de preparar a transição para uma nova vida num país de acolhimento, e/ou de voltar para o país de origem.

CABRA: O que você vai fazer depois da sua residência ICORN ?
Por ora, após a residência ICORN, que terá lugar em fevereiro de 2017, não tenho ideia nenhuma do que vai ocorrer. Mas, como qualquer bom filósofo, levo o dia pensando que o amanhã vai cuidar de si mesmo …. Sem dúvida, conto com alguma boa fé que compreenda a natureza da situação. Tento o meu melhor para fazer alguns contatos.

CABRA: Durante a sua residência com ICORN, como você faz a divulgação do seu trabalho ? Durante esse período, participo de todos os eventos literários e científicos relativos a meu trabalho, a minhas pesquisas e a minhas ambições literárias e acadêmicas. Nessas ocasiões, encontro pessoas com diferentes experiências e tento prever o futuro. É também nessas ocasiões que eu tento transmitir o trabalho do ICORN ao mundo.

 

Biografia
Conhecido professor de universidade, Felix Kaputu foi preso sem mandado de prisão, em 2006. Passou mais de quatro meses em prisões no Congo, sem acusações formais. Felix Kaputu foi libertado das prisões do Congo após uma enorme pressão internacional, a partir de pressões da mídia e da Anistia Internacional, e saiu da Republica Democrática de Congo (RDC) graças à pressão dos Scholars at Risk.

Felix Kaputu é professor universitário de literatura e cultura, escritor de ficção e não ficção, especializado em estudos africanos, arte e filosofia. Com um doutorado em literatura inglesa pela Universidade de Lubumbashi (RDC), Kaputu ocupou vários cargos de ensino e pesquisa, tanto na RDC quanto no exterior, incluindo os EUA, Japão e Bélgica. Já escreveu seis livros sobre questões que incluem o HIV / SIDA e direitos das mulheres na África. Suas publicações mais recentes estão na área de ficção e incluem os romances K-triângulo da morte: descenda ao inferno (Presses Universitaires du Nouveau Monde, 2013), Potência: Carne esquisita (Xlibris, 2011), bem como Jo-Mary: escravo preto livre (Xlibris, 2010).

Depois de uma viagem para dar conferências no Japão, em 2005, o Dr. Kaputu foi convocado para uma reunião com o diretor da universidade onde ele estava ensinando, a Universidade de Lubumbashi, em Kinshasa. Quem o interrogou, de fato, foi um general. Acusado de participar de um grupo separatista e de violar a segurança nacional do Congo, foi imediatamente detido, ilegalmente. Ele acredita que foi preso por ordens do governo como uma ameaça para os acadêmicos e intelectuais para que permanecessem em silêncio na preparação para as eleições de 2006, dentre outras razões. Dezenas de outras pessoas, incluindo líderes da oposição e médicos, foram presos em Lubumbashi e na capital Kinshasa, no mesmo período, em razão do suposto plano de secessão. Dr Kaputo foi avisado de que sua sentença será cumprir uma pena de prisão de 30 anos, ou mesmo a pena de morte, caso seja condenado.

Dr Kaputu foi detido por 10 dias, em uma cela de segurança local e, em seguida, transferido para o famoso Centro Penitenciário e de Reeducação de Makala, em Kinshasa, longe de 2.000 km de sua casa, onde passou pouco mais de quatro meses. As condições das prisões eram extremamente precárias.

Sofrendo a pressão da Anistia Internacional, dos meios de comunicação e dos colegas acadêmicos, o governo concedeu a Dr Kaputu a liberdade condicional, mas ele foi obrigado a ficar em Kinshasa. Quando foi finalmente autorizado a regressar a Lubumbashi, como resultado de uma maior pressão internacional, ele ficou sob vigilância constante e foi impedido de voltar para a universidade onde havia trabalhado. Passou, então, a se esconder e finalmente decidiu deixar o país.

Em agosto de 2006, Dr. Kaputu viajou para os EUA, dentro do programa Scholars at Risk (SAR), e ensinou na Universidade de Harvard (2006-2007) e no Purchase College da Universidade Estadual de Nova York (2007-2008). Tornou-se, então, professor e pesquisador do Centro Internacional de Pesquisa para Estudos Japoneses, em Kyoto, Japão (2008-2009), antes de assumir o ensino na Faculdade de Arte e Design, em Massachusetts, EUA. Antes de chegar a Cracóvia este ano, ele ocupou o cargo de professor visitante na Faculdade de Letras e Filosofia da Universidade de Ghent, na Bélgica.

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