Dessale Berekhet

é jornalista e escritor da Eritreia e foi hospedado por ICORN em Bo (Noruega), de 2012 até 2014
08/08/2016

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Foto: cortesia de Dessale Berekhet

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CABRA:  Por que você teve que deixar seu país?
Deixei meu país (Eritreia), porque estava completamente sufocado. Não há ali liberdade de qualquer tipo que você possa imaginar: nem liberdade de se expressar, nem liberdade religiosa, nem liberdade de mobilidade, nem liberdade de reunião e nem liberdade de pensar. A maioria dos amigos que conheci na prisão eram pessoas que apenas pensavam em deixar o país. Eles não tentavam realmente deixar o país, bastava pensarem em sair e alguém já os espionava e denunciava para as agências de segurança. Então, foram capturados e presos, só por terem contemplado a ideia de deixar o país. Pensar em deixar o país é um crime grave.

Eu era jornalista e escritor. E meu sonho era produzir livros lidos para crianças. Mas esse é o país mais horrível para se nascer, sendo-se jornalista e/ou escritor. Você não pode sequer sonhar com seu futuro. Porque cada jovem, depois do 11o grau, com a idade de 18 anos, tem de cumprir o serviço militar, que é obrigatório e sem limite de tempo. Ninguém sabe quando esse serviço chega ao fim. Não há nem estado de direito nem qualquer constituição nesse país. É tudo um one man show! Tudo esta sendo administrado por decretos diários.

Além disso, é um país onde não há direito fundamental de se viver em paz, ou mesmo de se morrer de uma morte natural decente. A maioria dos nossos amigos desapareceram por causa regime e sabemos que grande parte deles foram mortos nas masmorras escondidas do sistema, mas seus familiares íntimos não tiveram direito de recolher seus corpos para fazer o bom ritual de sepultamento. É um mundo tão cruel que cada pessoa realmente quer deixá-lo e não viver nele.

CABRA:  O que você está fazendo na cidade da ICORN onde você está vivendo agora?
Tenho estudado a língua norueguesa, durante os últimos dois anos. Também estava aprendendo, informalmente, como os noruegueses criaram o atual sistema da Noruega. Não há dúvida de que a Eritreia é o pior e o mais desconfortável país para se viver, principalmente para os seus cidadãos. Ao contrário, os noruegueses criaram uma situação propícia e favorável, onde podemos todos, incluindo os refugiados, viver com plena dignidade humana e plenos direitos.

Assim, cada dia aprendo sobre isso e escrevo sobre minha experiência pessoal em meu blog e falo sobre as discussões Pal-Talk com Eritreus na diáspora. Também sou um dos fundadores e membro da equipe de administração de PEN Clube de Eritreia no Exílio (http://www.peneritrea.com/articles). É uma associação de jornalistas eritreus, escritores e outros artistas no exílio. Temos também uma outra associação de tradutores, mas que não opera neste momento.

Em geral, acho, estou lutando contra o regime para fazer a diferença no país. E, para fazer isso, realmente precisamos criar uma consciência. Nesse país temos apenas uma TV, um jornal e uma rádio e todos trabalham para a propaganda do regime. Há um blecaute quase total dos meios de comunicação de internet. Não tem universidade! Então, realmente precisamos criar uma melhor opção para as pessoas. Para fazer isso, temos que mudar a atual narrativa podre.

CABRA:  Qual a importância da ICORN para você?
Para mim, é quase incomparável essa chance que tive de me integrar a essa “família global” da ICORN. Fui retirado e reintegrado pelo programa da ICORN de Uganda, depois de ter recebido graves mensagens de ameaça por parte dos defensores do regime na Eritreia. Na época, estava dirigindo um website que era muito crítico ao regime, junto com amigos. Foi um website vibrante e a equipe contava com pessoas que eram realmente determinadas. Era por isso que erámos uma ameaça. Se não fosse pela minha reintegração à ICORN, se tivesse ficado sozinho, lutando contra o regime, talvez tivesse sido assassinado por espiões do sistema, já há muito tempo. Então, a ICORN para mim não é apenas como encontrar um porto seguro; em primeiro lugar, a ICORN salvou minha vida e, agora, a ICORN transformou minha vida de clandestino na de um lutador pacífico bem equipado!

CABRA:  O que você fez depois da residência na ICORN?
Integrei a Nansenskolen (https://nansenskolen.no/english/) onde espero encontrar muitos intelectuais para adquirir mais conhecimentos para mudar minha perspectiva e, eventualmente, fazer uma mudança em minha sociedade, quando de volta na Eritreia. O mundo em que vivemos hoje é como uma aldeia global. É quase como um corpo de uma única pessoa. Se você tem uma dor numa de suas pernas ou mãos, você não pode ignorá-lo, porque está nos seus braços. E o mesmo acontece com a situação de todo o mundo. Temos problemas globais que estão tão inextricavelmente interligados que, quando um país sangra, o mesmo acontece com os outros. Cada pedaço é uma parte integrante do globo. Então, uma Eritreia doente não faz uma Noruega saudável, nem um Brasil. Todos nós precisamos trabalhar em harmonia e em solidariedade. Sempre tive esse sonho e esse pensamento e estou certo de que a mudança é possível e é por isso que lutamos incansavelmente.

Minhas palavras finais: na presente Eritreia, o sistema educacional e o currículo têm sido militarizados e politizados. Literatura, artes e trabalhos culturais foram projetados, manipulados e controlados para concordar com, promover e consolidar as narrativas falsificadas. Isso produziu uma sociedade que repete as mesmas narrativas que foram impostas, sem qualquer questionamento de qualquer informação fornecida pelo “governo”. Como resultado, a sociedade perdeu sua capacidade de explorar, investigar, rever criticamente e analisar informações. A menos que e até que invertamos esta mudança, não teremos o país ao qual aspiramos e sei que esse não é o trabalho de um dia para outro. Mas, com a plena solidariedade de pessoas que encontrei na ICORN, nada é impossível!

 

Biografia
Dessale Berekhet é escritor e jornalista eritreu. Trabalhou como jornalista até a repressão dos meios de comunicação privados na Eritreia, em Setembro de 2001. Em seguida, começou a trabalhar para os meios de comunicação estatais como freelancer. Berekhet também publicou dois livros sobre temas culturais e escreveu cinco livros para crianças, nas línguas locais Tigre e Tigrigya.

Dessale foi um dos fundadores de uma revista cultural Tigre Takiyat, onde trabalhou como editor-chefe, mas a revista teve curta duração, devido à censura e à interferência do regime.

Dessale Berekhet residiu como escritor convidado em Bo, cidade-refúgio da Noruega, de 2012 a 2014. Em 2014, Dessale fundou o PEN Eritreia, junto com colegas de seu país.

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