Asieh Amini

poeta, jornalista e ativista iraniana dos direitos humanos

19/07/2016

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Foto: Javad Montazeri

 

CABRA:  Por que você teve que deixar Irã, seu país de origem?

Eu trabalhava como jornalista e ativista dos direitos humanos no Irã. Meu objetivo principal eram ações contra a pena de morte (em particular, para jovens e mulheres), e contra o apedrejamento. Essas punições fazem parte do painel do código islâmico iraniano. Eu e alguns outros ativistas iniciamos uma campanha contra o apedrejamento, em 2006.

O governo conservador iraniano, especialmente durante seu regime, acreditava que os jornalistas independentes e as ativistas da sociedade civil eram inimigos do Estado islâmico. Muitos jornalistas, artistas, escritores, poetas e ativistas foram presos e condenados à prisão duradoura, durante esses anos. Mesmo durante o governo reformista, os reformistas não podiam afirmar seus valores políticos, como a liberdade de expressão e a liberdade da sociedade civil. Uma parte muito poderosa do regime foi liderada pelo grupo islâmico conservador e os reformistas não conseguiram impedi-los.

Fui presa por alguns dias, em 2007, embora o controle do regime e da imprensa tenha continuado, depois que fui libertada. A organização com qual eu trabalhava foi dividida em faixas. Tudo à nossa volta foi monitorado, mesmo minha vida privada e familiar.

Em 2009, após a eleição presidencial, foi anunciado que Ahmadinejad tinha sido eleito como presidente. O resultado foi inesperado para milhões de pessoas que acreditavam na fraude no resultado. Por isso, elas invadiram as ruas e protestaram. Mas o protesto foi silenciado com a matança de pessoas nas ruas, a condenação à prisão de muitos reformistas políticos, jornalistas, ativistas e manifestantes. Muitos dos meus amigos e colegas foram parar na prisão, e fiquei fora de casa um tempo, porque todo mundo à minha volta estava preocupado com minha situação.  

Nesse tempo, foi convidada a participar de um festival de poesia, na Suécia. Não tinha nenhuma ideia para meu futuro, apenas pensava que tinha que proteger minha família e minha filha. Esta é uma norma importante para mim: se você é um ativista de direitos humanos, você tem que pensar em você e nos seus filhos também. Então eu trouxe minha filha comigo. Na Suécia, ouvi dizer que a situação tornou-se pior do que antes. Finalmente, decidi ficar fora do país e, depois de ter conversado com alguns amigos, me inscrevi para ser um membro da família ICORN.

CABRA: O que você está fazendo na cidade ICORN você está vivendo agora?

Quando você se muda para uma sociedade completamente diferente da sua, você vai ficar em estado de choque por um tempo. Você deve ter muito cuidado – e talvez sorte – para que o tempo deste choque seja curto. Porque você vai começar uma vida numa nova situação fisicamente, mas você continua vivendo mentalmente na situação anterior. Isso pode ser perigoso, se você não consegue equilibrar os dois mundos. Meu tempo de choque não foi curto. Apesar disso, nos primeiros três anos em que vivi na Noruega, escrevi dois livros de poesia em norueguês e participei de um livro coletivo em inglês, alemão e persa. Escrevi também alguns artigos e fiz algumas conferências. Mas acredito que, durante todo o tempo em que fazia isso, ainda estava em choque. Porque, depois de três anos, eu me vi numa tal situação em que não podia entender minha filha! Era a hora de acabar com esse choque. Fui rever meu passado. Eu tinha um monte de experiências e devia encontrar uma maneira de usá-las. Além disso, como poeta, precisava saber mais sobre meu novo públicos. Acho que esta é minha responsabilidade. Eu precisava saber mais sobre sua história e sua cultura. Por isso, precisava aprender mais do que nós aprendemos nos cursos de língua norueguesa. Assim, decidi voltar para a escola. Fiz um curso de norueguês numa escola privada e, depois de um ano, o diploma na mão, comecei um mestrado sobre “Igualdade e Diversidade”, na universidade (NTNU). Agora estou no segundo ano e ao mesmo tempo estou escrevendo uma novela documental e o próximo livro de poesia. Além disso, continuo minha luta pela liberdade de expressão e pelos direitos humanos. Este ano, sinto-me honrada por trabalhar com o “PEN Clube da Noruega”, como membro do conselho.

CABRA: Qual a importância da ICORN para você ?

Eu acho que a coisa mais importante que uma pessoa perde, quando se desloca de sua pátria, não é apenas a casa ou a família. Especialmente para alguém que trabalha como artista, escritor, acadêmico ou jornalista. E acho que o pior é para os escritores, poetas ou jornalistas, pois eles trabalham com palavras, com idiomas. Porque é muito difícil voltar, ou manter o seu emprego, que você ama, na nova situação. Mesmo quando você aprende um novo idioma, isso não será suficiente. Porque a literatura não é apenas palavras! Você deve poder tocar a alma de uma cultura. E, antes disso, você tem provar para você mesmo, em primeiro lugar, o que você é e o que você declarou a seu respeito. Você tem que provar para você mesmo, nessa nova posição, que você tem o direito assumi-la. Esta é a importância da ICORN, na minha opinião. Porque eles assumem você e bancam sua posição para a nova sociedade. Eles apresentam você à família literária em sua nova casa. E estou tão feliz por ter tido esta oportunidade!

 

Biografia

Asieh Amini é poeta, jornalista e ativista dos direitos da mulher, e uma das defensores mais eficazes do Irã contra a pena de morte, em particular o apedrejamento e a execução de jovens. Foi premiada com o Prémio Hellmann/Hammett da Human Rights Watch, em 2009. Foi escritora convidada na cidade-refúgio de Trondheim, de 2010 até 2012.

Leia o retrato pessoal de Asieh Amini na New Yorker, a partir de dezembro de 2015:
Guerra de palavras. Batalha de uma mulher para acabar com o apedrejamento e execução de menores no Irã.

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