Ashraf Atraqchi

jornalista, crítico de arte, curador iraquiano, hospedado na cidade-refúgio de Estocolmo, na Suécia
29/11/2016

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Foto: Zaid Alobaydi

1) Por que você teve que deixar seu país?
Sou um artista visual e escritor que cresceu na cidade de Mosul. Fui muito ativo no setor cultural da cidade e, desde que era estudante, em 2004, trabalhei num programa cultural da Rádio Mosul, que se concentra em artistas e intelectuais que tiveram um papel importante na construção da área artística e cultural da cidade. Depois disso, recebi várias ameaças que me forçaram a deixar o trabalho na rádio. Todas as ameaças foram marcadas com os nomes Tawhid e Jihad, que são a origem do ISIS, como vemos hoje. Eles sequestraram um amigo que trabalhava na mesma estação de rádio que eu, o que me obrigou a deixar meu trabalho. Depois de ter deixado a rádio, fui para um trabalho em tempo integral, entre escrever e participar de exposições de arte. Também era empregado do museu da cidade de Al-Mosul, como curador. Nesse período, escrevi vários artigos sobre jovens artistas e trabalhei para criar e organizar um bom número de exposições de artes.

Em 2006, acordei uma manhã ao som de uma terrível explosão, muito perto de casa. Fui ver o que tinha acontecido. A estátua mais bonita da minha cidade tinha sido terrivelmente destruída – a estátua que eu amava desde a minha infância foi destruída, reduzida em pequenos pedaços deitados no chão – , eu era capaz de ouvir sua dor. Esse ato terrível tornou-se motivação para eu iniciar uma campanha organizada, nos jornais e nos meios de comunicação, a fim de reconstruir essa estátua, incentivando que parassem de alvejar jornalistas, artistas e escultores. Visitei até a casa de cada artista, conheci-os pessoalmente, quando era possível, ou conheci família e parentes, quando não era possível, recolhendo todas as fotos que tinham para essas peças de arte e esculturas. Também escrevi muitos artigos sobre artistas e muitas biografias. Os artigos foram publicados em vários jornais locais. Parecia que eu estava deitado num túmulo escuro e que as palavras que escrevia eram a única fonte de luz! O objetivo principal da campanha era ajudar a proteger artistas, pintores, jornalistas e escultores que estavam recebendo ameaças, por causa de seu trabalho artístico. Também pretendia proteger os monumentos contemporâneos da cidade e tentar fazer com que o governo apoiasse a reconstrução daqueles que foram destruídos pelos ataques terroristas. Esta campanha foi uma outra razão para me ameaçarem e para que pessoas desconhecidas me chamassem de infiel, numa total ignorância sobre o governo local e sobre todas essas ameaças. Numa das cartas, escreveram que meu destino seria semelhante ao da escultura que tinham acabado de bombardear. E realmente o fizeram: levaram a cabo sua ameaça e alvejaram meu carro com um dispositivo explosivo. Essa foi, para mim, a virada, quando perdi o reconhecimento por tudo. Estava com medo pela a vida de meus filhos, de minha esposa e por minha própria vida. Teríamos sido rasgados em pedaços, se estivéssemos dentro do carro. Tudo isso me obrigou a deixar a cidade e a me mudar para um vilarejo chamado Baashiqa, quando, ao mesmo tempo, o que tinha acontecido, gerou em mim um desafio para trabalhar como guerreiro, a fim de manter as cidades e a memória da civilização. Então comecei a me concentrar na escrita: fiz várias documentações e escrevi artigos de crítica de arte, sobre os monumentos contemporâneos e os artistas da cidade de Mosul. Todo esse trabalho foi publicado em vários jornais locais e também em meu blog pessoal.

Em 2014, depois que ISIS assumiu o controle da cidade, tive que escapar de Baashiqa e da cidade de Mosul para fugir para a Turquia. Parecia que minha alma estava deixando meu corpo naquele momento: foi uma das experiências mais dolorosas por que tive que passar em toda minha vida. No mesmo ano, em 2014, quando a ISIS divulgou seu filme de propaganda sobre como eles destruíram o museu da cidade, senti que era eu quem estava sendo destruído. Eles não pouparam nada, toda a herança antiga, as esculturas que tinham milhares de anos de idade, nem mesmo a parede de Ninveh — eles usaram escavadeiras para destruir tudo. Minha fuga foi uma experiência horrível. Na Turquia, eu não tinha nada, salvo uma caneta e um blog. Sempre quis saber se meus filhos tinham que pagar o preço por coisas que eu queria fazer, por palavras que me recusava a dizer. Depois de um ano na Turquia, ganhei uma bolsa de artista / escritor convidado em residência pelo PEN sueco e a ICORN. Estocolmo foi minha cidade anfitriã.

2) O que você fez, quando chegou na cidade-refúgio de Estocolmo ?
Em Estocolmo, tive a sensação de liberdade pela primeira vez, depois de anos de perseguição e repressão, e depois de ter vivido sob ameaça no Iraque e na Turquia. Numa cidade onde não há fronteiras, levei um tempo para me adaptar a essa nova situação! Passo a passo, comecei a sentir que fazia parte dessa nova sociedade. A experiência do exílio, do meu ponto de vista, foi mais do que uma chance, a chance de ser a voz das pessoas silenciadas em Mosul e no Iraque, em geral. Isso me ajudou a ser uma ponte entre os artistas de volta para sua casa e os artistas do mundo livre. Escrevi sobre eles, sobre o seu trabalho e sobre como veem as coisas e a situação em geral, no Iraque. Também durante a minha residência em Estocolmo, trabalhei documentando, através de vários artigos, as obras de artistas da cidade. Passei também algum tempo pesquisando o número de artistas e jornalistas que foram sequestrados e que desapareceram nas cidades ocupadas por Daesh (ISIS). Ao nível acadêmico, ministrei muitas palestras e oficinas, em várias universidades em Estocolmo e até mesmo na Universidade de Linköping. Escrevi vários artigos que foram publicados em Ord & Bild, Aftonbladet e um que será publicado em breve em Konstnären.

3) Qual a importância da ICORN para você?  
A ICORN foi uma grande rede para mim. Eles me ajudaram a me conectar com muitos artistas e organizações culturais, aqui em Estocolmo, e até mesmo em outras cidades livres. ICORN me ajudou a aumentar o meu conhecimento, minha experiência e minhas capacidades. Também me forneceu inúmeras plataformas, que foram para mim uma maneira de discutir meu trabalho e até mesmo publicar alguns deles.

4) O que você vai fazer depois dos dois anos de residência? 
Na Suécia, recebi uma bolsa de estudo por dois anos, que está quase terminando. Tenho agora que pensar sobre um monte de coisas, um outra nova situação, uma nova viagem para estender a minha residência em Estocolmo e encontrar um novo lugar para ficar. Ao mesmo tempo, tenho muitos projetos em andamento: ajudar os artistas a ficarem em casas de asilo, com a ajuda de amigos de Slaktshusateljeerna; temos o objetivo de fornecer-lhes uma curta residência artística, com material, networking e também com chances de exibir sua arte. Um outro projeto que estou planejando é de ajudar as crianças refugiadas a aprenderem sobre arte e convidá-las para workshops de arte, onde possam expressar-se de novas maneiras criativas. Na verdade, realizei um recente workshop com crianças na Lava Library, em Estocolmo. Meus jovens colegas artistas que participaram do workshop tiveram a oportunidade de pendurar sua arte nas paredes do maior centro cultural de Estocolmo.

Desenhos de Ashraf Atraqchi

Biografia
Ashraf Atraqchi (1980) é graduado pelo Instituto de Belas Artes de Mosul, no norte do Iraque. Vem de uma família de artistas e acadêmicos de Mosul e tem sido ativo no movimento cultural dessa cidade, desde que era estudante. Trabalhou como produtor de um programa de rádio cultural e publicou muitas peças de crítica literária e artística, em jornais iraquianos e em sites árabes. Os escritos de Ashraf centram-se nas artes, particularmente na proteção de esculturas históricas e contemporâneas da cidade de Mosul, bem como nas biografias de artistas iraquianos. Seus artigos foram publicados em vários jornais, revistas e sites culturais, como o jornal semanal Iraqiyoon (iraquiano), a revista al-Tarbiya (Educação) e a revista Thakirat Madina (A Memória de uma Cidade).

Depois de anos de pressão e de ameaças, de uma tentativa de atentado contra sua vida e, finalmente, depois da ocupação de Mosul por IS, em 2014, fugiu de sua cidade natal. Continuou a escrever artigos sobre arte e escultura, no exílio. Ashraf Atraqchi chegou em Estocolmo com sua esposa e filhos em maio de 2015.

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