Angelina Polonskaya

CABRA:

poeta russa, hospedada em Frankfurt (Alemanha)
28/07/2016
Download the original version of this interview here.

Portret WhiteAnzhelinaPolon.jpeg
Foto: Cortesia da autora.

 

CABRA: Porque você teve que deixar seu pais de origem ?
Pelo Oratorio Kursk, cujo libreto é baseado numa coleção de meus poemas (com música do compositor australiano David Chisholm), que estreou em Melbourne em outubro de 2011. É dedicado ao submarino “Kursk”, que afundou no Mar de Barents, incidente doloroso para os russos recordarem. A dimensão da catástrofe foi simplesmente enorme: as mortes horríveis dos marinheiros. O longo silêncio do presidente sobre o assunto que, em seguida, foi tamponado por um anúncio cínico, foi suficiente para que todos soubessem que o tema estava proibido. Meu trabalho deixou de aparecer na imprensa nesse momento. Simplesmente não contactei mais as poucas editoras que estavam dispostas a publicar minha poesia. Não queria colocar os editores numa posição desconfortável. A decisão de não publicar mais na Rússia veio naturalmente (minha última coleção de poemas apareceu lá em 2008). Já na primavera passada, comecei a receber correspondências de ódios anônimos (vou poupar vocês dos floreios estilísticos). Mas o conteúdo foi sempre o mesmo: em tom estridente e de modo imperativo, era “convidada” a sair do país. Rapidamente compreendi, claro, que se tratava de uma campanha organizada cujo objetivo era semear o medo. Em seguida, os telefonemas silenciosos começaram, mas o pior de tudo era quando minha mãe atendia ao telefone. Após o assassinato de Nemtsov, em fevereiro 2015, ficou claro que a situação era grave. As pessoas estavam sendo mandadas para a cadeia pelos protestos de um único homem. Ou até mesmo por usar fitas brancas, mero símbolo de protesto.

A saída massiva de intelectuais começou. Escritores, pensadores e quem mais foi capaz de preservar sua dignidade, como na década de 20 sob o comando dos bolcheviques, foram empurrados para fora do país. Seguindo um caminho já tomado no passado, muitos deles partiram para Berlim. A Rússia completou um ciclo: mais um círculo do inferno de Dante. Minha pátria tornou-se um muro intransponível. E, naquele mesmo momento, recebi um convite de Frankfurt. Foi uma oportunidade de viver e trabalhar, graças a algumas organizações que defendem valores universais, um dos quais é o direito à livre expressão.

A escolha foi difícil. Percebi que estava deixando minha mãe idosa para lidar com uma situação que se tornava cada vez mais problemática. E privando-a, assim, da minha proteção. Por outro lado, se eu recusasse a oferta, nós duas íamos perecer. Porque “escrever para uma gaveta” é um golpe mortal para a arte e não posso deixar de dizer a verdade. Deixei meu país em setembro de 2015.

CABRA: Quais são suas atividades na cidade-refúgio onde você esta morando agora ?
Este verão, depois que voltei da Alemanha (2014-2015), graças a uma bolsa de estudos na Akademie Schloss Solitude, tive a oportunidade única de trabalhar em dois livros – um da poesia e um de prosa – ao mesmo tempo. Agora continuo a trabalhar nos mesmos livros. 

CABRA: Qual a importância da ICORN para você ?
A ICORN me deu uma chance para ser salva. Como escritora e como ser humano. Estou muito grata a todas as pessoas que defendem valores universais e não posso imaginar como o nosso mundo ficaria sem organizações como a ICORN .

CABRA: O que você pretende fazer depois da sua residência com a ICORN ?
Tenho que pensar sobre esse problema a partir de agora. O contrato é de apenas dois anos, mas a situação na Rússia esta ficando cada vez pior. Na verdade, não tenho resposta para essa pergunta e eu apreciaria qualquer ajuda.

 

Biografia

Angelina Polonskaya é poeta de renome internacional. Nascida em Malakhovka, pequena cidade perto de Moscou, começou a escrever poemas seriamente na idade de dezoito anos. Nessa época, era patinadora profissional.  Teve traduções de sua obra publicadas em muitas das principais revistas de poesia do mundo, como o World Literature Today e Poetry Review. Seu trabalho também foi traduzido para holandês, esloveno, letão, espanhol além de outras línguas. Seu primeiro livro de versos, My Heavenly Torch (Minha tocha celestial), saiu em 1993, e foi seguido, em 1998, por um segundo volume, intitulado Verses (Versos), e, em 1999, por The Sky in a Private’s Eye (O céu num olho privado). Em 2002, um outro livro de poesia, The voice (A Voz), foi publicado em Moscou, e outro em 2004. A tradução para o inglês desse trabalho foi indicada para o Prêmio Popescu Corneliu , em 2005, na categoria “poesia europeia em tradução”. Em 2011, o “Oratório-Requiem” Kursk, cujo libreto é composto por dez dos poemas de Anzhelina Polonskaya, estreou no Festival de Melbourne Arts. Em 2013, Paul Klee’s Boat (O Barco de Paul Klee), uma edição bilingue de poemas recentes de Anzhelina Polonskaya, foi publicado e indicado para o Prêmio 2014, na categoria “melhor livro traduzido”, e para o Prémio PEN de “poesia em tradução”. Em 1998, tornou-se membro da União dos Escritores de Moscou e, em 2003, juntou-se ao PEN Clube russo. Anzhelina Polonskaya e sua família receberam ameaças, depois que ela retornou a Moscou após uma bolsa de estudos na Alemanha, no início de 2015. Especialmente por sua contribuição poética ao Kursk Oratorium, sobre o naufrágio de um submarino em 2000, assunto que é tabu na Rússia de hoje, sofreu severos ataques dos nacionalistas russos. A poeta permanece até 2017 na cidade-refúgio Frankfurt am Main.

A novela Grönland (Groelândia) é o primeiro livro de prosa publicado por Angelina Polonskaja, pela Edition Solitude. O livro foi traduzido para o Alemão por Erich Ahrndt. Saiba mais: http://www.akademie-solitude.de/de/publikationen/literatur/groenland~no3785/

Cover_Polonskaja.jpg

Para saber mais sobre a obra de Angelina Polonskaja:

A Schubert Excerpt by Anzhelina Polonskaya in Sampsonia Way Magazine

Five Poems By Anzhelina Polonskaya in Sampsonia Way Magazine

Insomnia by Anzhelina Polonskaya: Excerpt in Sampsonia Way Magazine

Anúncios