“Eu queria trazer meu pai comigo e todos os valores que ele representava.”

sonali

Sonali Samarasinghe é jornalista, advogada e ex-diplomata do Sri Lanka, foi hospedada na cidade refúgio de Ithaca, estado de Nova York.
Trabalha atualmente como diplomata sênior na Missão do Sri Lanka, junto às Nações Unidas, em Nova Iorque, em estreita colaboração com a ONU, no campo do Direito, com ênfase em assistência humanitária, igualdade de gênero, manutenção da paz e assuntos políticos.
Samarasinghe foi expulsa de seu país com ameaças à sua vida e à membros de sua família. Eles emigraram para os Estados Unidos, onde ela fundou o site The Lanka Standard (http://www.lankastandard.com), do qual continua sendo a editora-chefe.

 

CABRA: Por que você teve que deixar seu país?
Como jornalista investigativa, fui ameaçada por e-mail, telefonemas, cartas; fui perseguida e intimidada também de outras maneiras. Em janeiro de 2009, meu marido, Lasantha Wickrematunge, conhecido editor do Sunday Leader, foi morto pelas autoridades. Fugi então do Sri Lanka para escapar de morte, prisão, rapto e tudo o mais, devido a meu trabalho de jornalista.

O Morning Leader foi fechado depois que eu saí e o jornal The Sunday Leader foi vendido para operários do governo de então. A supressão dos meios de comunicação foi, por sua vez, um enorme problema no Sri Lanka. Muitos jornalistas (que falaram contra a injustiça) foram presos, sequestrados e até mortos.

Atuei como jornalista por mais de 24 anos. Comecei como advogada em tempo integral e jornalista em tempo parcial. Em 1998, mudei para jornalismo em tempo integral e reservei para o Direito um tempo parcial. Tanto como advogada quanto como jornalista, lutei pela justiça e pelos direitos humanos e denunciei a corrupção excessiva do então governo.

 

CABRA: Qual foi o seu papel como jornalista no Sri Lanka?
Comecei em notícias gerais e seções especiais, em crítica de arte e de teatro. Depois entrei num território mais perigoso, como jornalista de investigação, o que, pessoalmente, era muito importante para mim, já que meu pai era um policial sênior. Por isso, cresci nesta atmosfera de que a corrupção e a injustiça estavam excluídas e em que falar em defesa de justiça e de igualdade era um modo de vida. Tinha sido advogada por anos e minha formação jurídica foi de grande ajuda. Continuei nesse papel, mas, com o tempo, assumi mais responsabilidade editorial. Quando fugi do Sri Lanka, era editora e consultora do The Sunday Leader e editora-chefe e fundadora do jornal irmão, The Morning Leader. Nosso dever como jornalistas era expor a corrupção, falar a verdade ao poder e sustentar esse espelho proverbial. Nosso dever é para com a verdade e para com o bem da sociedade, seja qual for o custo. Trata-se de um compromisso tácito. Quando comecei, há mais de 27 anos, tínhamos mais liberdade para escrever, as coisas foram ficando progressivamente piores. Foi como que engatinhar para o autoritarismo.

 

CABRA: A que isso é atribuído?  Quando comecei como jornalista de investigação, no final dos anos 90, tivemos uma mulher presidente. Escrevemos muitos artigos sobre a corrupção, mas pelo menos eu era capaz de escrever sobre isso. Houve ameaças, jornalistas foram espancados, suas casas pulverizadas com tiros; nosso jornal foi fechado. Mas, por mais louco que pareça, em comparação com o que aconteceu entre 2005 e 2015, com o governo no poder, parece que antes ainda havia uma lasca de espaço democrático. O Estado de Direito não tinha sido completamente destruído. Por exemplo, fomos capazes de ir para a Suprema Corte e ter o encerramento do nosso jornal revogado. Isso nunca poderia ter acontecido entre 2005-2015. Durante esse período, a impunidade foi cancerígena e penetrante. Toda instituição democrática estava sob a bota de uma família que estava no poder.  A cultura política no Sri Lanka nunca foi ideal, mas, durante esse tempo, tornou-se tóxica. Jornais como o nosso eram capazes de formar a sociedade, de repelir e de acalmar o medo de represálias, permitindo informantes dentro do governo. Acho que agimos como um aviso aos funcionários públicos. Mesmo que alguma de nossas exposições da corrupção nem sempre tenha obtido os resultados desejados, pelo menos nomeou os responsáveis, envergonhando-os e impedindo que coisas piores acontecessem.

 

CABRA: Que pertences pessoais você trouxe com você, na noite em que você teve que fugir?
Eu não tinha tempo para pensar, ou de fato empacotar muito. Tinha uma mala minúscula, onde empacotei quatro livros. Meu pai tinha uma extensa biblioteca, que herdei. Eu queria trazer meu pai comigo e todos os valores que ele representava. Alguns dos livros estavam em frangalhos, mas eles representavam tudo de bom sobre essa ilha paradisíaca que me abandonara agora. Trouxe What Manner of Man – a biography of Martin Luther King Jr, de Lerone Bennett Jr ; Black Skin White Masks, de Frantz Fanon ; The Prophet, de Khalil Gibran e Jonathan Livingston Seagull de Richard Bach, meu sari nupcial e minha escova de dente.

 

CABRA: Conte-nos sobre sua família.
Meu pai era um policial sênior e minha mãe uma professora. Então, uma boa velha classe média alta, em vez da família conservadora. Éramos anglicanos, num país de maioria budista. Eu sou a mais nova de seis filhos. Todos nós fomos para uma das quatro escolas anglicanas do país. A educação era a coisa mais importante. Havia três opções: médico, advogado, engenheiro. Então fomos para a universidade e nos tornamos essas profissões. A unidade e os valores familiares significavam muito para nós e foi isso o que me manteve enraizada, diante de uma adversidade tão horrenda. Somente minhas memórias de infância me ligaram com o Serendip que uma vez fomos. Meus pais tinham desprezo pelo jogo da política manipuladora. Eram pessoas trabalhadoras e íntegras. Meu pai era um incomparável cavalheiro. Ele sempre jogava o bastão reto, sua palavra era seu vínculo e ele tinha um profundo senso de “noblesse oblige”.

 

CABRA: Qual é o seu sonho para o Sri Lanka?
Que volte a si mesmo. Que realize seu verdadeiro potencial e se torne uma verdadeira democracia. Perdemos nosso caminho, mas, com a liderança certa, ainda podemos refazê-lo. A partir de 2015, e com a mudança na administração, penso que o Sri Lanka está a caminho de um futuro brilhante. Se perseverarmos nessa direção e permanecermos fiéis aos nossos valores democráticos, tornar-nos-emos uma joia no Oceano Índico.

 

CABRA:  Quais foram suas atividades na cidade da ICORN que a acolheu?  Tornei-me uma escritora residente da cidade de Ithaca. Também comecei a dar palestras na faculdade mais importante da cidade – Faculdade de Ithaca. Escrevi poesia e não ficção; fui palestrante em muitos eventos, inclusive no Dia de Martin Luther King. Visitei uma escola em Pittsburg, que é outra cidade-refúgio. Fui convidada por essa escola, mais tarde, para abrir os trabalhos no Dia da Graduação. Dei muitas entrevistas para rádio e vídeo, para ativistas e jornalistas; fui entrevistada incontáveis vezes por estudantes seniores que estavam escrevendo seus trabalhos finais sobre política, direitos humanos etc. Viajei para proferir palestras, convidada por outras universidades. Trabalhei em minhas memórias e, de fato, outras obras literárias, incluindo capítulos para uma antologia de prosa.  Além das atividades da ICORN, fui também convidada a participar de seminários e a proferir conferências, pela Freedom House, pelo Comitê para a Proteção dos Jornalistas, pela Anistia Internacional, pela UNESCO, pelo grupo da diversidade da liberdade de imprensa e pelo grupo da luta contra a impunidade dos crimes contra jornalistas. Visitei o Congresso para falar com os congressistas sobre a liberdade de imprensa. Um cineasta norueguês produziu um filme sobre a minha história e estreou no Lincoln Center, em Nova York. Tantas atividades foram empreendidas para espalhar a notícia e lutar pela liberdade!

 

CABRA: Qual a importância da ICORN para você?
Fui muito abençoada por estar na presença de outros escritores tão corajosos. Como exilados, acho que nos tornamos conectados e ligados, mesmo se formos de culturas diferentes. Sabemos o que fomos, através os sentimentos de abandono, medo, ameaça, traição. Sabemos também que o espírito humano é irrefreável. Não precisamos dizer isso, tornamo-nos parte dessa nação de exilados.  O conceito da ICORN é bonito e representa o melhor do que a humanidade pode oferecer. Por causa de minhas experiências como escritora da ICORN, e porque fui membro do Conselho de Ithaca, como “Cidade de Asilo”, após minha residência, quero fazer algo mais concreto, em conjunto com outros escritores da ICORN e amigos da rede. Por isso, estou trabalhando atualmente para instaurar uma cidade-refúgio no Sri Lanka.

 

CABRA: O que você está fazendo agora, após a residência da ICORN?
Continuei como conferencista. No entanto, uma vez que a administração no Sri Lanka mudou em janeiro de 2015*, comprometendo seu compromisso com os valores democráticos, eu queria trabalhar novamente para reconstruir o Sri Lanka e suas instituições democráticas. Agora trabalho na Missão Permanente do Sri Lanka, junto às Nações Unidas, em Nova Iorque.

 

* Observação importante: Em janeiro de 2015, numa votação histórica, uma nova administração foi eleita pelo povo do Sri Lanka. Essa administração reiterou seu compromisso com os valores democráticos, o Estado de Direito e a liberdade de expressão. Imediatamente após essa eleição histórica, a 19ª alteração à Constituição de Sri Lanka foi aprovada, restringindo os poderes da presidência executiva e estabelecendo limites de mandato. Uma lei da liberdade de informação, que estava sendo elaborada por décadas, foi aprovada pelo Parlamento, e um escritório dos desaparecidos (OMP) foi criado. Um Ato de Proteção de Testemunhas também foi aprovado pela lei.

 

Biografia

Jornalista e advogada do Sri Lanka, Sonali Samarasinghe trabalhou na área do Direito por vinte anos, no Sri Lanka, e trabalhou como jornalista e editora fundadora do jornal semanal Morning Leader, com foco em direitos humanos, corrupção governamental e questões de gênero.

Samarasinghe recebeu diplomas de jornalismo do Aquinas College, no Sri Lanka, e da Australian School of Journalism, em Sydney. Possui um LL.B. Grau da Universidade de Londres e frequentou o Sri Lanka Law College, após o que foi admitida no Supremo Tribunal do Sri Lanka como advogada.

Samarasinghe também tem mestrado em Assuntos Internacionais, pela Universidade Nacional Australiana, em Canberra. É uma Neiman Fellow na Universidade de Harvard e uma jornalista internacional em residência, na Escola de Pós-Graduação de Jornalismo da Universidade da Cidade de Nova York.

Dentre os inúmeros prêmios por seu trabalho. Estão as Imagens e Vozes da Esperança para Impressão e Mídia Digital (2011), o Prêmio Internacional PEN/NOVIB Freedom of Expression (2009), o Prêmio Direitos Humanos da Federação Internacional de Jornalistas, o Global Shining Light Award, na Global Investigative Journalism Conference (2008), e Woman of Achievement (2006) da Zonta International.

Samarasinghe foi expulsa de seu país com ameaças à sua vida e à membros de sua família. Seu marido, o editor fundador do The Sunday Leader, um semanário que, juntamente com The Morning Leader, criticava abertamente o governo, foi assassinado.

Em janeiro de 2015, o Sri Lanka viveu uma mudança de regime e uma drástica reviravolta na política. A nova administração tomou medidas para implementar a justiça de transição, comissões da verdade, reparações e reconciliação genuína.

Samarasinghe agora trabalha como diplomata em missão de seu país, nas Nações Unidas, em Nova York. Lida com questões humanitárias e jurídicas, questões de gênero e de direitos humanos. Atualmente, está trabalhando para a criação de uma cidade-refúgio no Sri Lanka.

 

17/05/2017

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