ICORN salva vozes e vidas

“Conto a vida de todos os cubanos que não se atrevem a contar por eles mesmos (…). É o meu legado. E o meu amor.”

Orlando Luis Pardo Lazo é escritor, blogueiro e premiado fotógrafo do jornalismo cubano. Chegou em Reykjavik em Setembro de 2015, depois de uma bolsa IWP, na Universidade de Brown, bolsa de residência outorgada a escritores submetidos à perseguição política, encarceramento ou opressão em seus países de origem.

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CABRA: Porque você teve que deixar o seu país?

Meu livro de contos, Boring Home, foi censurado, em 2009, na Feira Internacional do Livro de Havana, quando estava prestes a ser lançado pela editora Letras Cubanas. O presidente do Instituto Cubano do Livro (Iroel Sánchez), o presidente da União de artistas e escritores cubanos (Miguel Barnet), e o Ministro da Cultura (Abel Prieto) aprovaram a decisão, por me considerarem um “contra-revolucionário”. O editor oficial, Vladimir Zamora, publicou que eu “não devo ser considerado mais cubano”, numa campanha de difamação que foi lançada contra mim. O editor da revista oficial UNIÃO, Ernesto Pérez Chang, afirmou que “eles não me permitiam mais ser um criador em Cuba”. O diretor da influente revista oficial EL Caimán Barbudo me acusou de “receber dinheiro” do governo dos EUA e de minha “degradação progressiva” como ser humano. Outros sites oficiais têm me chamado de “sociopata”, “ego maníaco”, “mercenário” das “empresas monopolistas transnacionais”, por organizar eventos freelance em Cuba, de ser um “animal de estimação da CIA” e um “fantoche do Departamento de Estado”, e de promover uma invasão militar na Ilha, em um cenário de “primavera árabe” em Cuba.

Tenho sido fisicamente expulso de espaços públicos em La Havana, como em exposições de revistas culturais, concertos de hip-hop e festivais de cinema. Citar meu nome é proibido em toda a imprensa nacional, em apresentações de livros e em documentários. Meu celular cubano foi monitorado em tempo real e seu serviço foi rotineiramente bloqueado. Minha casa foi colocada sob vigilância e ali tentaram instalar microfones, além de tentarem persuadir amigos meus para transformá-los em agentes de Segurança do Estado de Castro. Meus vizinhos têm sido interrogados pela Segurança do Estado sobre meu trabalho e minha situação fora de Cuba, a fim de espalhar rumores e prejudicar minha família. Antes de 2013, fui impedido várias vezes de sair do meu país. Fui interrogado durante horas por agentes do Estado de Segurança Cubano.

Fui ameaçado de espancamento, prisão e estupro, se persistisse como escritor livre. Impuseram-me um aviso oficial de Estado de Periculosidade, o que implica um agravante judicial e me coloca em alto risco de ser julgado e condenado até 4 anos de prisão, de acordo com o Código Penal cubano. Também fui arbitrariamente detido com violência, por três vezes em Cuba, sem qualquer motivo. Como consequência de todas essas medidas repressivas contra mim, em Cuba, em 2012, tanto a Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) como o Pen International me incluíram em seus relatórios sobre a repressão contra escritores do mundo.

 

CABRA: O que você esta fazendo em Reykjavik, a cidade refúgio da ICORN que o acolheu ?  

Estou escrevendo um livro que é metade biografia e metade romance. Conto a vida de todos os cubanos que não se atrevem a contar por eles mesmos, mesmo que já tenham “ se assumido” como exilados. É o meu legado. E o meu amor .

 

CABRA: Qual é, para você, a importância da ICORN?

A ICORN é uma ONG que se levanta contra o totalitarismo, o autoritarismo, os populismos despóticos e todos os tipos de regimes corruptos. É de extrema importância apoiar a luta da ICORN para salvar as vozes e as vidas de tantos artistas prestes a serem aniquilados, agora, no campo da palavra .

 

CABRA: Quais sao seu planos depois da residência da ICORN ?

 Estou planejando fazer um Ph.D. em Literatura Comparada, nos Estados Unidos. Dentro da academia dos EUA, há ainda muitas batalhas a serem travadas contra o castrismo intelectual, que é tão difundido, de Seattle a Washington DC .

 

Conheça o trabalho fotográfico de Orlando Luis Pardo Lazo sobre Havana – Seleção completa das fotos: https://youtu.be/MPZ6HR3UsqQ

Biografia

Escritor, editor, jornalista , fotógrafo .

Orlando Luis Pardo Lazo deixou Cuba em 2013, após reformas migratórias lançadas pelo governo de Raul Castro. Rotulado várias vezes como “dissidente” e “contra-revolucionário”, em sua terra natal, Pardo Lazo foi muitas vezes perseguido por seus escritos críticos e seu ativismo pacífico. Sua luta pela liberdade de expressão na arte e no ativismo social o tornou sujeito à censura oficial, incluindo a difamação pública em sites governamentais, a exclusão do seu trabalho da Rádio cubana e do Instituto TV ( ICRT ), ameaças anônimas, interrogatórios feitos pela polícia de assuntos políticos e detenções sem acusações.

Formado como bioquímico molecular, em 1994, Pardo Lazo começou a trabalhar em 2000 como escritor freelance, blogueiro e fotógrafo, publicando nacionalmente livros de ficção, premiados em Cuba, dentre os quais Colagem Karaoke (2001), Empezar de cero (2001), Ipatrías ( 2005) e Mi nombre es William Saroyan (2006). Sua mais recente coleção de contos, Boring Home (2009), foi censurada e teve sua publicação proibida, em Cuba.

Pardo Lazo é representante de um movimento na literatura cubana denominado “Generación Año Cero” (“Geração Zero”), composto por um grupo de escritores cubanos que começou a publicar nos anos 2000. Raramente traduzida em Inglês ou distribuída internacionalmente, a maioria da nova literatura cubana é bastante desconhecida mundialmente. Em 2014, Pardo Lazo editou uma antologia de 16 contos de escritores “pós- Fidel”, traduzida para o Inglês, que revela uma desconstrução da percepção da realidade e da mentalidade cubana. A antologia é intitulada “Geração Zero: uma antologia da nova ficção cubana”.

Pardo Lazo é também um colaborador prolífico de revistas cubanas e jornais internacionais impressos e digitais de renome. Publica crítica literária, escrita literária e artigos de opinião sobre uma variedade de tópicos, incluindo a situação dos direitos humanos em Cuba. Tem textos publicados em “La Gaceta de Cuba”, “Diario de Cuba”, “PanAm Post”, “Sampsonia Way Magazine”, “The Huffington Post”, “In These Times”, “Todas as Vozes”, “Penúltimos Días”, “Cronopio”, “Qué Pasa”, “The Prague Post”, “Cubaencuentro”, “Letras Libres”, “El Nuevo Herald” e “El Nacional” (Venezuela), dentre outros periódicos.

Desde 2008, Pardo Lazo editou uma série de revistas literárias “underground”, na internet, incluindo “Cacharro(s)”, o “Revolucionário Evening Post”, e “Voces”. Dirige também um blog “Lunes de Post-Revolución” (e a versão inglesa de “Segundas-feiras da pós-Revolução”). Através de um blog paralelo, Pardo Lazo divulga suas fotos, que chegaram a ser celebradas pelo blog “New York Times Lens”. As fotos da coletânea “La Havana abandonada” podem ser vistas no site “Restless Books” (www.restlessbooks.com).

 

Para conhecer mais sobre o trabalho de Orlando Luis Pardo Lazo:

18/05/2016

Foto: cortesia da rede ICORN

Download the original version in english here

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